Perderam a essência

30 de novembro de 2019 08:18
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Quem você elegeu é um ambicioso político ou um político ambicioso?

Quem você elegeu é um ambicioso político ou um político ambicioso?

Dependendo da construção da frase ou da ordem das palavras o substantivo vira adjetivo e vice-versa. É isso que estamos vivendo nos últimos tempos, um dilema existencial no âmbito da política nacional com nossos congressistas perambulando entre a razão de “ser” e a intenção de “ter”. Alguns já não escondem suas intenções nem se importam com a missão outorgada por quem os elegeu, agarram-se aos direitos e benefícios que obtiveram as nossas custas enquanto curtem seus mandatos, isso lhes basta, é o que lhes interessa.

Voltando à gramática, a ambição como substantivo traduz o anseio do indivíduo por alcançar determinado objetivo, já ambicioso é um adjetivo e indica desejo incontrolável por poder, riqueza, glória e/ou realização.

Política é outro substantivo, e denota arte ou mesmo ciência no que diz respeito ao ato de governar, entretanto, quando tratamos de quem a pratica e exerce, o político, passamos a conhecer uma das poucas situações em que uma palavra consegue ser adjetivo e substantivo, mas que na maioria das vezes remete a astúcia, esperteza, habilidade, maquiavelismo, trapaça e outras, todas substancialmente mais substantivos que adjetivos (a ênfase é pertinente).

Segundo Sócrates, político é um homem público que lida com a chamada “coisa pública”. Segundo Platão, é uma pessoa filiada a um partido ou “ideologia filosófica de conduta” (¹).

O purismo das mencionadas considerações filosóficas acima adquiriu aspectos nada edificantes quando através do tempo a ambição se transformou em ganância e a política em profissão; quando a astúcia se transformou em usura e a ética, por ser um conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral (²) passou a ser um empecilho aos acordos e conchavos nas coxias do Congresso Nacional.

A história recente das relações políticas do país não tem a abnegação como fundo, não existe altruísmo em seu enredo nem honra em seus capítulos.

Muitas das pessoas que lá estão são figuras pálidas, toscas mesmo, perderam a essência, são carcaças podres, corroídas pela corrupção endêmica e rejeitados sociais, razões pelas quais vão precisar de muita coragem para voltar a andar a pé pelas ruas de seus redutos eleitorais.

(¹) Wikipédia (²) Estudegratis

Marcelo Augusto Portocarrero é engenheiro civil.