Lembrando Lenine de Campos Póvoas

27 de novembro de 2021 08:31
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Lenine de Campos Póvoas comemora o seu Centenário em 2021

Lenine de Campos Póvoas comemora o seu Centenário em 2021. Nasceu em Cuiabá em 04/07/1921 e faleceu em 29/01/2003).

Em 1994, por ocasião das comemorações do Centenário de nascimento do Bacharel Júlio Strubing Muller (1895-1995), falecido em 04 de março de 1977, em jornal publicado na cidade de Cuiabá, em edição comemorativa, várias personalidades homenagearam Júlio Muller, dentre elas o historiador Lenine de campos Póvoas que assim deixou registrado para a história o seu testemunho.

Nas linhas escritas por Póvoas, visitamos uma Cuiabá de outrora. Hoje, encontramos, ainda, lugares intactos e lugares alterados, ocasionados pelo adensamento da cidade.

Lenine de Campos Póvoas comemora o seu Centenário em 2021

“Para Lenine de Campos Póvoas, (…) O velho Cel. Júlio Frederico Muller, filho do médico alemão Dr. Augusto Frederico Muller, foi personalidade ilustre da sociedade mato-grossense nos fins do século passado e começos do atual. Casado com D. Rita Corrêa Muller, teve o casal vários filhos, dos quais Fenelon Muller (nascido a 19/081892, Júlio Strubing Muller (nascido a 06/01/1895) e Filinto Muller (nascido a 11/07/1900), tornaram-se figuras destacadas da política mato-grossense.

“(…) Em janeiro próximo (1995), Mato Grosso vai comemorar o centenário de nascimento do saudoso bacharel Júlio Strubing Muller, cuja esposa, Dona Maria de Arruda Muller, também nascida da alta estirpe cuiabana, é a decana e uma das figuras mais proeminentes da Academia Mato-grossense de Letras, tendo sido brilhante participe e estimuladora do movimento cultural feminino em nosso Estado”.

“(…) Júlio Strubing Muller iniciou modestamente sua vida pública dedicado ao magistério estadual, tendo sido professor e Diretor do Grupo Estadual de Poconé (MT), do Grupo Escolar de Barão de Melgaço, em Cuiabá (MT), e Escola Normal Pedro Celestino, depois de ter se formado Bacharel em Ciências e Letras pelo antigo Liceu Salesiano São Gonçalo, nos termos da legislação da época. Posteriormente tornou-se comerciante e industrial.

Começando nas atividades políticas exerceu vários e importantes cargos públicos, a começar do de prefeito municipal de Cuiabá, após a vitória da revolução de 1930. Foi posteriormente chefe de polícia e Secretário Geral do Governo do Estado. Em 1935, eleito deputado estadual, integrou à Assembleia Constituinte desse ano.

Com o falecimento do então governador Dr. Mario Corrêa da Costa, a 7 de setembro de 1937, foi investido, pela Assembleia Legislativa, nas funções de governador, para concluir o período governamental. Com o advento, a 10 de novembro de 1937, do “Estado Novo”, foi nomeado interventor Federal de Mato Grosso, permanecendo nesse cargo até outubro de 1945 quando, com a queda daquele regime, deixou o governo.

Sua administração foi das mais fecundas já registradas nos anais da história mato-grossense. Muito embora seja comum lembrar-se a sua passagem pela chefia do executivo estadual pelas obras que realizou em Cuiabá (MT), visando torná-la uma cidade digna da sua condição de capital, não resta a menor dúvida de que a parte mais importante de sua gestão foram as reformas empreendidas nos serviços públicos, com o objetivo modernizá-los e colocá-los atualizados com a realidade que o país passou a viver depois da revolução de 1930.

Os serviços da saúde pública do estado passaram por uma reformulação geral, criando o “departamento de saúde pública”, em substituição à antiga “diretoria de higiene” e a medicina preventiva passou a ser encarada como prioritária. Foi instalado o “departamento estadual de estatística” com o objetivo de transmitir ao governo dados precisos sobre o estado, capazes de orientar as decisões governamentais.

Uma verdadeira revolução foi registrada na “imprensa oficial do estado”, sob a chefia do grande jornalista Archimedes Pereira Lima, que a remodelou totalmente, dotando-a das máquinas mais atualizadas que então existiam, em termos de “linotipos e rotativas”, para a impressão de jornais, o que lhe permitiu lançar o Diário “O Estado de Mato Grosso”, até hoje circulando como um dos melhores órgãos da nossa imprensa.

O “tesouro do estado”, conduzido pela capacidade e experiência administrativa do Coronel Antonio Antero Paes de Barros, sofreu completa reformulação que o colocaram Up to date com a mais avançada técnica da contabilidade.

As chamadas “Obras oficiais de Cuiabá” foram um dos pontos mais alto da sua administração. A construção do suntuoso prédio do Liceu Cuiabano, ainda hoje um dos melhores de todo o Brasil, refletiu o cuidado que merecia a instrução pública do interventor Júlio Muller, carinho esse que se sentia em todos os quadrantes do estado.

No que dizia respeito à saúde pública, uma das obras que mais diretamente beneficiaram a população da capital foi a “construção da estação de tratamento de água”, na rua presidente Marques, que possibilitou o início da distribuição de água filtrada e clorada para o povo cuiabano, eliminando de vez o quadro de doenças hídricas que anualmente o intranquilizavam no início da estação chuvosa. A construção do “Hospital para tuberculosos”, hoje conhecido como Hospital Júlio Muller e transformado em Hospital da Universidade Federal de Mato Grosso, refletia também a preocupação do eminente interventor com a saúde pública, que o início das vacinações em massa acabaram por comprovar.

Das chamadas “obras oficiais de Cuiabá”, às quais esteve ligado o nome do ilustre e competente engenheiro Cássio Veiga de Sá, além das já mencionadas, destacaram-se: a abertura da avenida Getúlio Vargas, na qual foram construídos os prédios do Grande Hotel de MT (atual sede da direção central do Bemat), hoje abandonado, aguardando revitalização, do Cine Teatro Cuiabá, do Palácio da Justiça e da Secretaria Geral do Estado, hoje Arquivo Público de Mato Grosso-APMT; na rua Barão de Melgaço foi construída a “residência oficial dos governadores”, hoje sede da fundação da Cultura e Turismo, atualmente fechada, aguardando revitalização; na rua 13 de junho, o Centro de Saúde do Estado, no prolongamento da av. XV de novembro, no Porto, foi lançada a ponte sobre o Rio Cuiabá, hoje “Ponte Júlio Muller”, obra decisiva para o desenvolvimento dos municípios da região Oeste Mato-grossense, principal ligação entre Cuiabá e o município de Várzea Grande e, outros.

Com verbas federais obtidas pelo governo estadual foram iniciadas as obras do “Hospital Geral e Maternidade”, na rua 13 de junho, o qual continua atendendo à população e na avenida Dom Aquino auxiliou a administração da construção do “Abrigo das Crianças”, obra de importante sentido social, cujos serviços não existem mais. Na serra de São Vicente (Rodovia Cuiabá-Rondonópolis), instalou a interventoria Júlio Muller “a colônia correcional de Palmeiras” e construiu “o hotel Termas Aguas Quentes”, que hoje remodelado e ampliado pelas firmas arrendatárias Treze e hotel Mato Grosso, constituem uma das mais belas atrações turísticas de Mato Grosso. Ainda nessa mesma região serrana obteve do governo estadual que o Ministério da Agricultura construísse o importante “Patronato Agrícola de São Vicente”, uma das mais eficientes escolas agrícolas do país.

Na região sul do estado foram realizadas obras de grande porte, como a construção do grupo escolar Afonso Pena em Três Lagoas (MS), a do quartel e penitenciária de Campo Grande (MS), onde foram ampliadas as instalações do grupo escolar Joaquim Murtinho, as construções do quartel de Bela Vista (MS) e das escolas reunidas de Rio Pardo (MS).

No setor dos transportes a ação governamental fez-se presente na construção do “Campo de Aviação” de Cuiabá-MT e na abertura e conservação de estradas e lançamento de pontes nas principais rodovias da época. Na rodovia Cuiabá – Campo Grande, foram construídos 200 km inteiramente novos, desviando-se da rota de Chapada de Guimarães (MT), que representava uma longa volta para a variante da Serra de São Vicente, que encurtou extraordinariamente o percurso para a atual capital de Mato Grosso do Sul.

Foi essa, em síntese a administração realizada em pleno período da 2ª guerra mundial quando as dificuldades do erário federal impediam maiores auxílios aos estados, que nos levou o Bel Júlio Muller, figura cujo centenário de nascimento nosso povo, agradecido, agora reverencia.

Em seu Centenário agradecemos ao imortal Lenine de Campos Póvoas os registros de sua memória sobre a história de Cuiabá e do Estado de Mato Grosso.

 

Neila Barreto é jornalista pós-graduada em História.