CPI da covid cita que Bolsonaro planejou que pandemia invadisse comunidades indígenas de Mato Grosso

24 de outubro de 2021 10:56
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Categorias: Notícias, Política

Foto: Reuters/Adriano Machado

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Relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da covid-19, citou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) planejou que a pandemia se alastrasse nas comunidades indígenas de Mato Grosso, provocando a morte de vários indígenas.

A CPI tem por objetivo apurar, em 90 dias, as ações e omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia da covid-19, assim como as possíveis irregularidades em contratos, fraudes em licitações, desvios de recursos públicos e outros.

Conforme citado pelo senador Renan Calheiros, relator da CPI, o jurista Miguel Reale Júnior, responsável por organizar a comissão de juristas, concluiu que a omissão e condutas do presidente afetou diretamente a população indígena na pandemia.

“Resta claro, portanto, que o Presidente da República, pessoalmente e por meio da estrutura organizada e hierárquica de poder, através de diversos Ministérios e órgãos de controle ligados à proteção constitucional dos povos originários, na forma prevista do artigo 231 da Constituição Federal, deliberadamente planejou, incentivou, autorizou e permitiu que a epidemia invadisse e se alastrasse nas comunidades indígenas, em especial nos territórios do Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Ceará e Pernambuco”, disse.

“Causando um número inaceitável de mortes, lesões graves, desnutrição, deslocamentos forçados, ataques por grupos armados, contaminação por mercúrio, entre outros atos desumanos de igual gravidade”, continua.

O documento aponta ainda o caso do indígena Kukaren Cinta-Larga, que morreu em decorrência da covid-19. A deputada federal Joenia Wapichana noticou a morte de pelo menos 10 indígenas Cinta-Larga. Inclusive, a falta de testagem entre eles motivou o contágio descontrolado entre indígenas e profissionais da saúde.

Conforme relatório de enfermagem da Casa de Saúde Indígena Cuiabá, Kukaren Cinta-Larga foi internado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Pascoal Ramos e foi tratado com ivermectina – medicamento que não tem eficácia cientificamente comprovada contra a covid-19.

“Diante de aumento da temperatura corporal e baixa saturação de oxigênio no sangue, foi tratado com azitromicina, ivermectina, acetilcisteína e dipirona, na UPA Pascoal Ramos, mesmo antes do diagnóstico de covid-19, que seria confirmado apenas dias depois, ao longo dos quais os sintomas continuaram a se agravar”, denuncia.

Além das dezenas de mortes por covid-19 de indígenas, o relatório destaca também o falecimento do célebre cacique Aritana Yawalapiti, um dos últimos falantes de sua língua ancestral e conhecedor de outros quatro idiomas tradicionais.
“A perda de referências e lideranças, somada à restrição dos rituais coletivos e do contato intergrupal e intergeracional, agrava as ameaças à reprodução cultural dos indígenas”, aponta.

O documento revela que um estudo, conduzido pelos pesquisadores Gustavo Hermes Soares, Maria Gabriela Haye Biazevic e Edgard Michel-Crosato, da Universidade de São Paulo, e Lisa Jamieson, da Universidade de Adelaide (Australia), mostra que, no ano de 2020, o excesso de mortalidade apurado entre os povos indígenas foi da ordem de 34,8%, ao passo que, na população em geral, ficou em 18,1%.

Entretanto, na noite de terça-feira (19), o grupo majoritário da CPI decidiu retirar a referência ao genocídio de indígenas do relatório final.