A pandemia e o cativeiro

29 de junho de 2020 09:00
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Na teologia Bíblica, o cativeiro designa o período que vai da destruição de Jerusalém 

Na teologia Bíblica, o cativeiro designa o período que vai da destruição de Jerusalém  por Nabucodonosor (Babilônia), em 587 a.C,  até sua reconstrução, iniciada em 537 a.C , sob comando de Ciro (Persa)

O costume de deportar os povos conquistados,  para desarticular a resistência, era uma prática muito antiga no Oriente médio. Com a deportação, o povo mergulhou num mortal desânimo, crise de identidade e angústia coletiva pelo desenraizamento cultural e espiritual (Ez.11,15 e Is. 49,14; Sl.136). Muitos se perguntavam: Fomos esquecidos pelo Deus de nossos Pais?

Mas, em pleno âmago da  grande provação, Deus continuava presente e atuante na história do seu povo, numa fidelidade admirável. A importância religiosa do cativeiro consistiu não somente na sobrevivência da consciência unidade nacional do povo Hebreu, mas também, na produção  bíblico-teológico. Porquanto, muitos livros sagrados foram escritos e redigidos pelos Escribas, e hagiógrafos nesse período.

O mesmo pode-se dizer, da boa parte dos escritos proféticos, como foi o livro do profeta Ezequiel e uma parte do profeta  Isaías.  Portanto, o cativeiro não foi em vão! Foi tempo de profunda reflexão, estudo, produção teológica e intensa  espiritualidade.

Durante o cativeiro Deus se revelou em sua santidade  intransigente e na sua desconcertante fidelidade.  O povo, distante da terra santa, sentiu Saudades do templo,  do culto nas sinagogas, do livre cultivo da fé.

Mas, o  povo  teve, também,  que se reinventar e revisar o culto ao soberano Senhor. Nesse período, o culto a Deus  se manifestou fora do templo segundo as palavras do profeta Ezequiel, sacerdote e profeta: “ A glória de Deus não está encerrada no templo”( Ez.1,1…) e cuja presença é um invisível santuário para os exilados (Ez11,16). Comparo este tempo sombrio que estamos vivendo  com o cativeiro do povo da Bíblia.

Pois, também agora, o espírito de adoração a Deus está acontecendo  fora dos templos e se expressa, também,  no cuidado com a  vida humana, com a  sobrevivência, o com a saúde coletiva e solidariedade com milhares de famílias que foram atingidas. Pois, “a fé sem obras é morta”(Tg 2,17).

Verdadeiramente, estamos revivendo um cativeiro espiritual, marcado  pela  imensa e indescritível dor, pela perda de mais 55 mil  vítimas. Cada brasileiro (a) falecido (a) carrega consigo, um pouco de cada um de nós.

Em relação a essas perdas, o impacto é ainda maior, quando somos tocados  na carne com a navalha da morte, com a perda de algum familiar.

É nessa hora que sentimos o “tic-tac” do coração   descompassar.  Esta dor é potencializada pela falta do ritual dos velórios, tão importante e essencial  para  reconstrução das identidades das pessoas que partiram e  elaboração do luto familiar.  Isto porque, em cada velório, há uma narrativa dos parentes relatando o histórico da vida do falecido(a).

Sem este ritual, muitos sentimentos não são extravasados. Ficam contidos ou reprimidos, agravando a saúde emocional dos familiares.  Além disso, esta  pandemia, em curva crescente de contágio, expôs ou escancarou,  ainda mais, o quadro de desigualdade social no Brasil.

Segundo a pesquisa do IBGE, os pretos, os pardos e os sem estudos, são os mais afetados pelo novo coronavírus. Em fim, que  “este vale de lágrimas” que estamos atravessando nos ensine a reprogramar a vida,  incorporando  nela, novos e saudáveis hábitos, e buscando um estilo de vida mais sóbrio, humanizado e solidário!  A ressignificação da vida dependerá da nossa criatividade, turbinada pela esperança, como nos aconselha o grande poeta Carlos Drummond:

“Enfeite-se  de margaridas e ternura, e escove  a alma com leves fricções de esperança.”  Sim, de esperança em esperança, sempre na esperança na vitória contra esta impactante pandemia.

Deusdédit de Almeida é sacerdote Diocesano e Cura da Catedral Basílica do Senhor B. Jesus.