A Mula que falava

29 de junho de 2020 08:56
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A mula falante não pertence ao grupo dos animais que aparecem nas fábulas

Conta o texto bíblico, em Números cap. 22, versos 23 a 30, que havia há mais de três mil anos uma besta (ou mula) que falava. “Grande novidade!” dirão alguns, “têm muitas ainda, quem não conhece a Dilma Rousseff e a Luciana Gimenes?”.

Mas essa mula era muito comedida, ao contrário das de hoje.  Parece que falou uma única vez e numa situação meio complicada; se falou outras vezes não deixou registro.

Para quem como ela que nunca frequentara uma escola, a tal mula apresentou um linguajar satisfatório: concordância perfeita, boa dicção, uso correto de pronomes.

A mula falante não pertence ao grupo dos animais que aparecem nas fábulas tais como O Cordeiro e o Lobo, O Corvo e a Raposa ou o Coelho e a Onça, que supostamente conversavam como os humanos. Afirmam muitos conhecedores da Bíblia Sagrada que ela existiu realmente e pertenceu ao profeta Balaão.

Parece que seu dono não conhecia essa sua virtude nunca vista nos muares, embora convivesse com ela por muitos anos e a utilizasse nas viagens proféticas.

Um dia lá ia o profeta montado no ainda não famoso animal, preocupado com o que falaria ao rei Balaque a quem ia encontrar, quando a mula dá um bufo apavorado e mudando rapidamente de direção quase joga no chão o cavaleiro, que aqui deveríamos chamar de muleiro, porque montava uma mula e não um cavalo.

A besta assustada enveredou por uma plantação de trigo que tinha na beira da estrada, obrigando seu dono a usar todos os dotes de ginete e a força física para interromper aquela carreira desembestada, sem trocadilho, é claro.

Estancada a correria o animal empaca. O profeta, homem misericordioso, sereno e comedido desceu o porrete na cabeça da mula, irritado com a sua repentina teimosia. Ele ficou admirado do comportamento do animal, que sempre fora manso e obediente e de repente está ali deitado no chão, recusando a ir em frente. E dê-lhe mais pauladas no lombo e na garupa.

Foi aí que a mula abriu a boca e soltou o verbo: “Calma aí, sua besta!” Não, não, ela não falou desse jeito, isso é exagero do narrador. Seria demasiada ofensa chamar de besta o profeta, mas que ela pensou assim, com certeza pensou (também dedução do cronista).

“Por que estás me espancando desse jeito, meu senhor?” disse ela “Não vês o Anjo que está à nossa frente com a espada desembainhada, pronto para degolá-lo, se dermos um passo a mais?”.

Conta o Livro Sagrado que nessa hora Balaão o profeta viu o Anjo e entendeu o precioso serviço que este nobre animal lhe prestara.

Boa mula esta. Livre de ressentimentos salvou da morte o seu dono que há pouco a espancava sem nenhuma piedade. Embora não se tenha notícia, Balaão, agora arrependido, deve tê-la recompensado ricamente. Provavelmente nunca mais trabalhou, vivendo seus dias restantes com farta alimentação e doce ociosidade. Filosofando também, o que é próprio dos burros e das mulas, conforme convictamente afirmou o nosso escritor maior Machado de Assis.

Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor.