Que feio, senadora!

24 de junho de 2019 08:32
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Neste domingo, a capa da Gazeta trouxe uma conversa com a senadora por Mato Grosso, onde a parlamentar utiliza-se de termos chulos para tratar um jornalista, postura absolutamente imprópria para o cargo que ocupa. Já faz alguns anos que a grosseria foi erroneamente identificada com espontaneidade. Ser espontâneo não é ser grosseiro, contudo. Nunca foi. Aliás, falta em muita gente o que papai e mamãe chamava de “modos”: de segurar um garfo ao protocolo social, de comer com a boca fechada à execução do hino nacional. Não quero pontificar aqui o antigo raffiné de uma elite afrancesada, onde resumia-se tudo no bom e velho savoir faire. Nem é preciso o curso da Socila para moças que não estudaram no Sion ou no Sacre Coeur e rapazes que não tiveram a sorte de cursar o Santo Inácio ou o São Bento. Nossa sociedade mudou e muito da antiga etiqueta perdeu validade. Educação sempre foi muito mais do que a mera finesse, polimento amaneirado das famílias abastadas de “França, Europa e Bahia”.

Nem tampouco quero exigir de ninguém que mande uma garrafa de vinho e um cartão de agradecimento por um convite. Seria conveniente uma visita no hospital, em casos de doença, flores pelo convalescimento, um telefonema no aniversário, para ficar no básico da elegância. Detenho-me, entretanto, em atos prosaicos da educação elementar: o indiscriminado uso do celular durante uma conversa, a falta de paciência para entrar no elevador, a postura truculenta no trânsito etc. A pontualidade ou a falta dela é um outro exemplo do que estou querendo dizer. Falta de pontualidade é horrível. Atrasar 10 minutos é perfeitamente compreensível. Demorar 30 minutos ou mais passa recibo de que o atrasado não tem a menor educação. Não, não se trata de consideração pelo anfitrião. É de educação que estou falando. Faltar a um compromisso agendado e não avisar com antecedência, outra falta de simancol sem par. Ser mal agradecido é grave falha na educação e no caráter de alguém. Pior: tenho visto grosserias inomináveis com idosos, com professores, com garçons, com recepcionistas e atendentes em geral, uma verdadeira covardia de gente que se acha superior.

Quanto mais alto alguém chega na escala social, maior a obrigação de ser educado e não o contrário. Ninguém está autorizado a dispensar a educação. Vamos parar de confundir educação com conhecimento, ok? A escola, a universidade, com todas as vantagens do convívio coletivo e das orientações de leitura, nunca vai repassar valores tão profundos quanto os exemplos emanados da família. Costumo comentar que tem gente esquecendo por completo o que os pais falaram desde a infância: respeitar os mais velhos, agradecer gentilezas, dizer muito obrigado, por favor e com licença. Não é preciso saber como descansar os talheres, em qual taça vai o vinho branco ou o tinto, onde colocar o guardanapo de pano, como comer lagosta ou escargot. Se souber, ótimo! Antes, porém, é preciso lembrar do básico. Não se pode abrir mão de um conjunto de normas para se viver em sociedade: tolerância, respeito, delicadeza são essenciais.

Lamento profundamente o episódio com a senadora mato-grossense. O jornalista tem como missão fazer perguntas, questionar a coerência da pessoa pública, sobretudo dos mandatários da vontade popular. Costuma-se pensar que as mulheres na política vão aumentar o nível do debate em razão da ontologia feminina ligada à delicadeza, outro equívoco preconceituoso. A pessoa é bem ou mal educada, independentemente do gênero. Antigamente, para admoestar o filho, bastava dizer – “que feio”. Já era o bastante para passar um carão a quem tivesse o mínimo de vergonha na cara. De vez em quando, o puxão de orelha é necessário, muito embora eu desconfie que não funcione com gente mal educada. De qualquer forma: que feio, senadora. Que feio!

Eduardo Mahon é advogado e escritor.