Mitos eleitorais

RODRIGO VARGAS
RODRIGO VARGAS

Cabe a nós, eleitores, rejeitar a mera figuração destes candidatos na campanha deste ano

Eles são decididos e firmes. Olham nos olhos. Recitam de cabeça trechos inteiros de leis obscuras e aparentam saber tudo a respeito de temas complexos, da gestão da saúde às estratégias para conter o avanço da violência urbana. Suas diferenças pontuais só acentuam o parentesco próximo: são todos mitos.

Nos últimos trinta e poucos anos de redemocratização, o Brasil se acostumou a apostar neles, os mitos, como a saída mágica para crônicos problemas. E, se é verdade que não perdeu sempre, também é fato que, mais cedo ou mais tarde, terminou o jogo devendo as próprias calças.

Hipnotizados pelos enredos de novela dos marqueteiros, os eleitores foram levados a acreditar que bastava escolher alguém dotado de algo especial. E, nesse caminho, aprenderam que biografias, sozinhas, têm mais peso que partidos, grupos econômicos, projetos e concepções de Estado.

Quando menciono projetos, não me refiro às famosas promessas de campanha (outra categoria sequestrada pelos especialistas em fisgar o voto alheio). Falo em ideias concretas, que explicitem sem rodeios o rumo que será seguido, independentemente do incômodo que venham a provocar neste ou naquele setor.

Nossas campanhas eleitorais, com raras exceções, se prestam a determinar quem tem a vida pregressa mais heróica ou menos complicada, quem se porta melhor nos debates e quem põe mais ênfase na indignação em cima de palanques. E, mais importante, quem fala aquilo que queremos ouvir.

Não é por acaso que brigamos e discutimos tanto por nossos mitos de estimação. Eles foram moldados às nossas crenças, sejam elas quais forem. Críticas a respeito de possíveis falhas gerenciais ou de caráter, neste contexto, são recebidas pelos “fãs” como ofensas pessoais.

Em poucos meses, você sabe muito bem, eles estarão de volta. Quem busca a reeleição dirá que as dificuldades foram superadas e que, com a “casa arrumada”, será a “hora da virada”. Quem quer voltar ao poder, por sua vez, fará de tudo para mostrar que tudo está uma bagunça e que a tal virada depende de outra pessoa no comando.

Quem é marinheiro de primeira viagem dirá que representa o “novo” na política. E, se for um ex-funcionário público de destaque, melhor ainda: usará a experiência prévia como atestado de lisura e tenacidade. O folclórico dirá que ninguém mais presta. O laranja estará ao lado de quem pagar mais.

Mas, se os papéis principais estão definidos desde sempre do lado de lá, cabe a nós, eleitores, rejeitar a mera figuração a que nos relegaram. E a boa notícia é que nunca tivemos tanto acesso às entranhas da administração pública como agora -e nunca dependemos tão pouco das fontes de informação tradicionais.

O conhecimento é a vacina mais certeira contra a empulhação que dominou nosso processo político. Sem intermediários, nos permite identificar, naquele velho discurso construído por pesquisas de opinião, os detalhes com os quais devemos realmente nos preocupar.

Se o sujeito diz que vai incentivar a geração de empregos, e está rodeado de grandes exportadores de soja em grão, é bom saber como ele se posiciona em relação ao vespeiro da Lei Kandir, por exemplo. Defende mudanças? Até que ponto?

Se você já tem o seu mito de estimação, há tempo de sobra para desmontá-lo impiedosamente -o que, é bom dizer, não significa deixar de apoiar sua eleição.

Procure saber o que ele de fato pensa sobre os temas mais relevantes para a sociedade. Saiba quem são os seus apoiadores mais importantes e, principalmente, como costumam opinar a respeito dos mesmos temas.

Você pode descobrir que aquela promessa que tanto te encantou jamais será colocada em prática -porque não é de interesse de nenhum financiador. Ou que se trata de algo fora da esfera de atuação do seu preferido.

Em outubro, tenho a mais absoluta certeza, nossa principal tarefa como eleitores é muito mais do que pinçar nomes em uma lista, naquela triste e cômoda escolha entre o “menos pior”. Em um país com tantos problemas, importam cada vez menos os nomes. De nada nos valem os mitos. É preciso escolher, de forma livre e consciente, uma direção.

RODRIGO VARGAS é jornalista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *