Mau começo

RENATO DE PAIVA PEREIRA

Não bastassem os improvisos do eleito, temos a preciosa colaboração da equipe

O presidente eleito tem dom de criar confusão com seu estilo de falar primeiro e pensar depois, o que o obriga a reconsiderar inúmeras afirmações. Aliás, esta facilidade de reconhecer erros é uma de suas virtudes.

Veja o caso de mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, reconhecendo-a implicitamente, como capital do país a despeito do manifesto descontentamento do mundo árabe.

Jerusalém é uma cidade religiosamente disputada por Judeus e Palestinos e ao Brasil não deveria interessar essa briga que há séculos divide hebreus e árabes.

Afinal qual a vantagem do Brasil mexer nessa caixa de marimbondos? Não havia nenhuma necessidade de ficar do lado dos Judeus, tanto que, de todos os países do mundo, somente Estados Unidos e Guatemala mudaram a embaixada para Jerusalém.

Comercialmente só teremos prejuízos. Eis que os países árabes são nossos importantes parceiros, ao contrário dos judeus que muito pouco compram de nós, mesmo porque a população de Israel – menos de nove milhões de pessoas – é menor que a do Ceará.

A primeira reação dos países árabes veio do Egito cancelando uma reunião que o chanceler brasileiro, Aluysio Nunes Ferreira, teria com empresários daquele país nesta semana.  O prejuízo da insensatez deve ser alto, podendo comprometer nossa exportação para aqueles clientes.

Também, mais uma vez preferindo a minoria inexpressiva comercialmente diante de tradicionais grandes parceiros, o presidente eleito sinaliza favoravelmente para a província rebelde de Taiwan irritando a poderosa China. Embora tenha recebido o embaixador da China o fez com algum descaso, afirmando que seu país “pode comprar do Brasil, mas não comprar o Brasil”, mostrando pouco de jogo de cintura.

Mas o ele vai mais longe. Internamente, a despeito de a nação brasileira ser laica, vive anunciando aliança com os evangélicos. Basta lembrar da ridícula cena divulgada na mídia do pastor e cantor Magno Malta em emocionada oração/discurso de agradecimento quando saiu o resultado da eleição.

Se não bastassem os danosos improvisos do eleito, temos a preciosa colaboração da equipe: o filho diz que um cabo e um soldado fechariam o Supremo; o ministro da economia pede veementemente “uma prensa” no congresso para acelerar reformas e ele próprio diz que o censo de desemprego do IBGE é uma farsa.

O presidente está copiando o estilo irresponsável e falastrão do Trump.  Só não lhe explicaram que o “General“ do planeta fala o que quiser porque tem o salvo conduto que o poder econômico lhe dá. O Capitão brasileiro, que não tem a imunidade do colega americano, não pode falar abobrinhas inconsequentemente.

O presidente Bolsonaro tem um enorme crédito por ter derrotado o PT, entretanto é bom não abusar da inconstância das ideias e da prepotência da equipe. O nefasto Collor de Melo, de triste lembrança, caiu porque esqueceu que o Congresso, a despeito da péssima qualidade de seus membros, precisa receber sinais de respeito. Fingidos, claro, por que reais ele não merece.

RENATO DE PAIVA PEREIRA é empresário e escritor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *